O papel da imprensa nas derrotas do PT

Penso que a razão maior da derrota está na conjuntura regional e nacional, no clima de incertezas e ansiedades criado pela criminalização da política e na demonização do PT como responsável por governos, atacado diuturnamente pelos grandes meios de comunicação. O estudo da Uerj s obre capas e manchetes negativas, ao longo de meses, comprovou isso de forma insofismável. Se pesquisa semelhante a essa feita com O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo for estendida ao grupo RBS, o resultado será muito pior, na criminalização do PT e, por consequência, no desgaste do governo através dos jornais, das rádios e TVs. Centenas de matérias, ao longo do mandato, com manchetes do tipo “Estradas esburacadas”, “Caos na saúde”, “Crise na educação”, “Governo não paga o piso”, “Transporte não funciona”, “Mensalão e corrupção do PT” repercutiam contra o governo.

As manifestações massivas de junho de 2013, inicialmente vistas pela mídia como expressões de “baderneiros”, “vândalos”, rapidamente foram saudadas como legítimas representantes da cidadania e de ações reivindicativas.

Esse clima que se arrasta há quase uma década com a Ação Penal 470 foi exacerbado com as denúncias da Petrobras. Exploradas por Aécio, foram avalizadas por Marina e por Eduardo Campos, dando respaldo às denúncias e acusações contra Lula, Dilma e principalmente, o PT. Esse clima exasperou a tese da “mudança”, sem considerar que esta pode ser para um recuo ao passado ou para pior. A racionalidade, o debate livre de preconceitos, a história e os compromissos dos concorrentes eram secundários. O que importava era a “mudança”.

O uso na eleição da TV e do rádio para mostrar o governo, suas obras e serviços, publicizar o que fora sonegado ou manipulado pela mídia ao longo do mandato, não teve importância para a população.

O enfrentamento à candidatura Ana Amélia (PP-PSDB) era incontornável. Favorita desde o início da campanha até as vésperas do primeiro turno, a candidata precisava ser desnudada de sua aparência de apresentadora de TV por seus compromissos partidários e de classe que, efetivamente, sempre representou. Não resistiu ao mínimo confronto programático e de história de vida, mas sua derrocada foi traduzida como resultado dos “ataques impiedosos e arrogantes” de Tarso e do PT.

Transformou-se em vítima e fortaleceu o senso comum na montanha-russa das pesquisas eleitorais. Em uma semana, a candidatura Sartori, que já desativava equipes de TV e rádio, saltou do terceiro lugar para chegar à frente no primeiro turno. No segundo turno, Sartori (PMDB) fez 61% dos votos e Tarso (PT) 39%.

Esse fenômeno é de difícil explicação na lógica natural da relação de forças, da qualidade das campanhas, do brilho e competência pessoal dos candidatos. Não há uma racionalidade que decifre esse sentimento que mistura senso comum, ansiedade por mudança e ódio e intolerância no debate político. Este foi substituído pela não política. O atributo e a virtude passam a ser não ter opinião, não assumir compromissos, não apresentar alternativas aos principais desafios que o estado exige. Um candidato sem partido (“meu partido é o Rio Grande”), sem programa ou opinião (“um gringo que faz”) e com um elogio ao simplório, ao senso comum (“Sartorão da massa”).

Mesmo com candidaturas acima de suspeitas, de qualquer indício desabonador em sua trajetória, Tarso Genro e Olívio Dutra, como candidato ao Senado, foram derrotados, primeiro, por esse sentimento difuso, preconceituoso, do antipetismo, da mudança sem rumo, do elogio ao senso comum e, principalmente, da identificação do PT e do governo nas denúncias da Petrobras.

Outros fatores também influíram na derrota da Unidade Popular no Rio Grande do Sul. São de natureza distinta e, em conjunto ou individualmente, não mudariam, do nosso ponto de vista, o resultado final. Mas são importantes como experiências e lições para qualquer força política, e temos de aprender com isso.

Nos três primeiros anos, o governo sofreu uma crítica duríssima do maior sindicato do Estado – o Centro dos Professores do Rio Grande do Sul (Cpers) – em relação ao piso nacional do magistério. Uma visão marcada pelo esquerdismo economicista que simplificava todo o debate num índice impraticável aprovado pelo Congresso e desconhecia que nenhum professor recebia menos que o piso e os reajustes dados pelo governo garantiam, no mandato, um ganho real superior a 50% com a manutenção do plano de carreira. A crítica foi dura e partidarizada, influindo em outras categorias e na opinião pública, por meio de caríssimas campanhas de outdoors que eram aproveitadas pela direita. O sectarismo era tão acentuado que a diretoria do Cpers foi derrotada na categoria, em 2014.

O Sindicado dos Médicos, de base estadual, desempenha um papel reacionário e corporativo com campanhas de rádio, jornal e TV em defesa de uma saúde abstrata contraposta às políticas governamentais sempre ditas insuficientes. Seu corporativismo fundamentalista é contra novas faculdades de medicina e colocou-se até contra o Programa Mais Médicos. Pregando um falso moralismo e uma categoria com grande influência nos setores médios, acaba tendo audiência pública.

A saída dos aliados, PSB e PDT, do governo também enfraqueceu o projeto. O primeiro sob a alegação da candidatura presidencial de Eduardo Campos, que, posteriormente com Marina, acabou no colo de Aécio. Uma trajetória galopante para a direita e para reforçar o antipetismo. O PDT afastou-se em razão da candidatura própria no estado, do deputado federal Vieira da Cunha. O prejuízo foi grande, pois levou o PDT, apesar do equívoco da candidatura que se revelou um fracasso, a não assumir com firmeza a candidatura Dilma, além da condição de opositor no estado, do governo de que havia participado.

No governo, tivemos problemas e equívocos consideráveis. O Conselhão, por suas características, não criava relações de protagonismo no governo que nos permitissem ampliar o número de pessoas que, se identificando com as políticas, fossem apoiadoras do projeto. Isso retirou esforços na direção dos conselhos estaduais ou de algo como o orçamento participativo, que são mecanismos muito mais seguros para o protagonismo e a identificação com as políticas aprovadas.

A falta de foco, de um plano previamente determinado, facilitou a dispersão de recursos sem uma hierarquia a ser buscada. A poderosa Secretaria de Infraestrutura não conseguia operar obras e serviços, debatia-se num leque enorme de ações e, periodicamente, perdia tempo, esforços e recursos financeiros em projetos inviáveis.

A manutenção do sistema eleitoral com voto nominal, financiamento por empresas e coligações proporcionais foi outro fator de prejuízo. Dificultou alianças mais programáticas, pulverizou as campanhas individualizadas e estas se automatizaram sem compromisso programático e material com as campanhas majoritárias. A maioria dos panfletos, santinhos, fôlderes, cartazes etc. dos candidatos dos partidos aliados não divulgavam a chapa majoritária para governador e senador.

Por fim, a campanha teve um atraso injustificável e falta de material. É conhecida a fragilidade estrutural dos partidos, inclusive o nosso. Numa campanha dominada pelo poder econômico, a fragilidade do PT é enorme. Refiro-me não apenas aos recursos arrecadados para os candidatos, mas aos recursos disponíveis e potenciais em cada município (sedes, veículos, implantação social, disponibilidades de militantes etc.). Nesse aspecto, a estrutura partidária é muito débil e, nos momentos eleitorais, a burguesia e seus partidos contam com os clubes, as igrejas, a propriedade do comércio, das empresas, dos serviços, das rádios e jornais, transformando-os em uma força considerável.

A soma dessas questões alteraria o resultado se evitadas ou corrigidas? Penso que não. Existem situações conjunturais dificilmente reversíveis, mas, ao menos, precisamos e devemos ter consciência e aprender em cada circunstância dessas, para nos prepararmos para as próximas.

*Raul Pont é deputado estadual (PT-RS)

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